1 de outubro de 2014

Carta ao sobrinho

Nascerá de manhãzinha Gabriel e quando, de súbito e num susto, se deparar com o vazio que consubstancia a vida, peço que se esforce para encher de ar os pulmões e que deixe brotar de seu âmago o mais robusto, intenso e libertador dos prantos.
Nascerá de manhãzinha Gabriel e quando, carinhosamente e pela primeira vez, for envolvido pelo colo delicado de sua mãe, peço que dele desfrute intensamente e que aprenda desde logo que ele será, daqui para frente, o mais aconchegante dos lares que conhecerá.
Nascerá de manhãzinha Gabriel e quando, instintiva e intuitivamente, identificar o toque  protetor e desvelado das mãos de seu pai, peço que o guarde para si como um gesto indizível de amor e que o carregue consigo de forma latente, perpetuando-o e renovando-o aonde for.
Nascerá de manhãzinha Gabriel e quando, assustado e desconfiado, encarar olhares curiosos e amáveis, peço que saiba identificar neles a essência maravilhosa que emana da sua família e que seja capaz de dela extrair a mesma incrível e plena felicidade que a sua chegada gerará.
Nascerá de manhãzinha Gabriel e terá a certeza de que embora só, você nunca estará sozinho.

15 de setembro de 2014

Um aprendiz e nenhum mestre

Sou um naufrago perdido numa ilha de incertezas a contemplar o todo, sem dele nada extrair. Corro com os cabelos desvairados e desnorteadamente, quase sempre em círculos e sem rumo por sobre pedregosos grãos de desesperança. Faço das minhas infindáveis, limitadas  e imaturas reflexões refúgio fugaz e precário e deixo de ver sentido, congruência e coerência na dinâmica da vida, tomado que sou pela angústia de nada saber. E neste passo incerto e trabalhoso vou desbravando e enfrentando a minha pueril existência, tal e qual um inseguro e inexperiente aprendiz que carrega dentro de si a aflitiva sensação de ter sido abandonado repentinamente pelo mestre.


26 de agosto de 2014

O mundo é dos loucos

Sejamos mais loucos e desvairados e menos sábios e racionais. Ajamos por impulso e por arrebatamento. Enchamos de misticismo os nossos gestos e ouçamos mais e melhor os nossos instintos incontroláveis. Choremos um rio de lágrimas se for preciso e nos emocionemos com as mais triviais e finitas coisas. Comamos com mais prazer e durmamos inebriados pela esperança que permeia os sonhos. Tomemos mais chá em homenagem ao ócio e diminuamos a ligeireza dos nossos passos automáticos. Toquemos acordes em um instrumento qualquer e sintamos que são as nossas almas que regem o som que dele emana. Aprendamos a perdoar o imperdoável e a errar sem nunca perder a respeitabilidade. Não cobremos dos outros e de nós mesmos em demasia e percebamos a escassez e a miudez do tempo que nos levará ao túmulo. Acreditemos na soberania da verdade e na intangibilidade do destino e saibamos apreciar a beleza que brota da nossa aparente insignificância. Exercitemos o direito de fundamentar o mistério, de nos arrepiar com o azedume do limão e de nos presentear com a doçura indizível do açúcar. Tornemos mais intensos e menos previsíveis os nossos momentos e experimentemos o que nos amedronta e nos limita. Achemos graça das nossas esquisitices e excentricidades e tenhamos um pouco mais de paciência e de tolerância. Puxemos, por fim, com firmeza as rédeas das nossas frágeis vidas e façamos delas pequenas obras de arte, dignas de ser guardadas num cantinho qualquer desse universo sem sentido.

 

13 de agosto de 2014

Ao paquera

Não me venha com meias palavras e com carinhos pouco efusivos. Não me diga frases prontas e nem tente me convencer do seu pseudo interesse através de gestos questionáveis. Não cozinhe os meus sentimentos em Banho Maria e nem tenha a desfaçatez de sumir por uma semana e dizer que sentiu a minha falta e que tudo que vivenciou na minha ausência o fez lembrar de mim. Não se atreva a me usar como se eu fosse um objeto da sua insegurança e sinta vergonha por não ser corajoso a ponto de dizer em alto e bom som o que de fato quer comigo, ou mesmo, que nada quer. Não me faça perder dias, meses e anos preciosos dessa minha existência única e não demore muito para se decidir acerca de nós dois, eis que sua estranha incerteza tende a me fazer concluir que não merece os meus encantos e a pessoa extraordinária que me tornei.

15 de julho de 2014

Pedido à tristeza

Invada-me tristeza e me leve para o fundo do mais profundo poço desta terra. Faça-me senti-la escalpelar-me as entranhas e o âmago e me conceda a oportunidade de conhecer a mais crua faceta de um sofrer intenso e desmedido. Dai-me o direito de encarar nos olhos os meus mais terríveis medos e as minhas mais sutis limitações e se apodere das minhas veias e artérias tal como faz o sangue que nelas corre. Torna-me discípulo da dor que ensina, que fortalece e que transforma e não me deixe abandoná-la sem compreendê-la e nem viver sem antes morrer de amor.
 

2 de junho de 2014

A espera

Esperarei por ti ainda que isto me atire no limbo e me faça despencar no penhasco da mais absoluta incerteza. Aceitarei o estranho e inexorável pressentimento que de mim se apodera ao te ver e o palpite inexplicável e inconsciente de que não haverá outra mulher a me preencher a vida num olhar, tal como fez. Agir diferentemente será o mesmo que extirpar de mim e deixar perecer a mensagem intuitiva que, por ora, me invade como que me convidando a destrancar portas intransponíveis e a percorrer caminhos intransitáveis envolto pelo manto sagrado da paixão. Talvez perpasse pela crua e corajosa imprudência esta minha iniciativa incomum e definitiva e é bem provável que num futuro próximo eu me compadeça da minha doce inocência, mas prefiro morrer fiel às elucubrações sinceras e incontroláveis do meu peito do que viver renegando-as artificialmente.
 
 

27 de maio de 2014

Casa Amora

Adentro-te quase sempre faminto e cheio de pressa, mas invariavelmente me embriago com a mistura de cores que alcançam os meus olhos no trajeto até os rechauds. Das flores que parecem emergir saudáveis das paredes extraio a leveza do verde, das encantadoras luminárias feitas de luz e xícaras da roça a imponência do laranja, da madeira de que são feitas as mesas, tons diversos de marrom e dos quadros, janelas e uniformes a delicadeza quase transcendental do lilás. Mais inebriado ainda fico quando o meu olfato identifica os vapores aromatizados que volatilizam dos pirexes milimetricamente dispostos por sobre o balcão, impregnando o ar feito perfume de especial essência. À esta altura e enquanto escolho os ingredientes do meu prato, os quais são nele servidos com cuidado e carinho, sinto minha boca salivar influenciada pela beleza e pela diversidade de texturas de cada um dos alimentos ofertados e expostos por detrás do vidro límpido e conceitual.  É tamanha a intensidade das sensações até ali vivenciadas que, no momento em que me sento à mesa, não mais pareço o mesmo ser humano de minutos atrás. Sou inundado por uma serenidade inexplicável e arrebatado pelo gosto delicioso e peculiar da comida que faço questão de mastigar pausadamente, como que desejando prolongar o prazer finito e temporário de um almoço semanal.  E na hora de ir embora, já satisfeito e após degustar uma diminuta xícara de café torrado, sou agraciado pelo sorriso de três pequenas e incríveis mulheres que, ao seu jeito, transformaram uma casa antiga, num verdadeiro e autêntico pé de amoras doces, do mesmo tipo daqueles dos quais nunca desgrudávamos quando ainda crianças.  
 

14 de maio de 2014

Ser romântico

Ser romântico é se passar no mais das vezes por incompreendido. É se destacar em meio à multidão de desiludidos e preferir o amor a covardia, o sentimento a razão. É lutar para que palavras apaixonadas não se percam no tempo e no espaço e é se preocupar em disseminar gestos sempre permeados de carinho. Ser romântico é encontrar sentido no afeto e poetizá-lo diariamente para que não o transformem em algo trivial. É inundar de emoção o cotidiano e dele fazer palco de rompantes inesperados e surpresas inesquecíveis. É extrair de toda e qualquer rejeição um ensinamento eterno e perdoar aqueles que se mostram incapazes de se devotar. Ser romântico é, na verdade, uma vocação própria dos que se recusam a deixar secar os olhos diante da beleza descomunal da vida. 

 

14 de fevereiro de 2014

Amo-te calado

Amo-te calado e me escondo de ti na mudez artificial do meu ser. Na sua presença controlo gestos naturais e automáticos e calculo cada mínimo movimento meu para não soar galanteadora demais a minha postura. Evito te olhar nos olhos para neles não me perder feito um cego andarilho. Pinto de morenos os seus lisos cabelos loiros de molde a tornar menos atrevidas as minhas mãos na ânsia de tocá-los. Do seu sorrir extraio apenas o movimentar simétrico dos lábios e tento dispensar a singela beleza que deles emana. Finjo um equilíbrio inexistente ao me sentar perto de ti e de tudo faço para tornar tranqüilas as minhas claramente perturbadas feições. Falo o menos possível com medo de que as palavras lhe sirvam numa bandeja a essência dos meus sentimentos e lhe revelem a centelha de paixão que carrego comigo. Inspiro e expiro pausadamente o ar quando não consigo deixar de notar a delicadeza dos seus traços que tanto me colorem a alma e a iluminam. E é por te amar calado que escrevo e me declaro para que ao menos possam todos saber o que ainda não tive coragem de lhe contar.
 
 

31 de janeiro de 2014

O fato é que é

Bagunça-me como se eu fosse um enorme quarto de brinquedo e você uma criança levada e arisca. É te ver para o meu mundo virar do avesso, para as minhas certezas se dissiparem feito vapor d’água e para o meu sangue correr descontrolado por veias latejantes. Deve ser coisa de alma essa nossa ligação autêntica e travessa. Ou então loucura crua em forma de admiração e carinho desmedidos. Seja lá o que for e como for, o fato é que é, sem que versos soltos sejam capazes de explicar.