15 de julho de 2014

Pedido à tristeza

Invada-me tristeza e me leve para o fundo do mais profundo poço desta terra. Faça-me sentir-lhe escalpelar-me as entranhas e o âmago e me conceda a oportunidade de conhecer a mais crua faceta de um sofrer intenso e desmedido. Dai-me o direito de encarar nos olhos os meus mais terríveis medos e as minhas mais sutis limitações e se apodere das minhas veias e artérias tal como faz o sangue que nelas corre. Torna-me discípulo da dor que ensina, que fortalece e que transforma e não me deixe abandoná-la sem compreendê-la e nem viver sem antes morrer de amor.
 

2 de junho de 2014

A espera

Esperarei por ti ainda que isto me atire no limbo e me faça despencar no penhasco da mais absoluta incerteza. Aceitarei o estranho e inexorável pressentimento que de mim se apodera ao te ver e o palpite inexplicável e inconsciente de que não haverá outra mulher a me preencher a vida num olhar, tal como fez. Agir diferentemente será o mesmo que extirpar de mim e deixar perecer a mensagem intuitiva que, por ora, me invade como que me convidando a destrancar portas intransponíveis e a percorrer caminhos intransitáveis envolto pelo manto sagrado da paixão. Talvez perpasse pela crua e corajosa imprudência esta minha iniciativa incomum e definitiva e é bem provável que num futuro próximo eu me compadeça da minha doce inocência, mas prefiro morrer fiel às elucubrações sinceras e incontroláveis do meu peito do que viver renegando-as artificialmente.
 
 

27 de maio de 2014

Casa Amora

Adentro-te quase sempre faminto e cheio de pressa, mas invariavelmente me embriago com a mistura de cores que alcançam os meus olhos no trajeto até os rechauds. Das flores que parecem emergir saudáveis das paredes extraio a leveza do verde, das encantadoras luminárias feitas de luz e xícaras da roça a imponência do laranja, da madeira de que são feitas as mesas, tons diversos de marrom e dos quadros, janelas e uniformes a delicadeza quase transcendental do lilás. Mais inebriado ainda fico quando o meu olfato identifica os vapores aromatizados que volatilizam dos pirexes milimetricamente dispostos por sobre o balcão, impregnando o ar feito perfume de especial essência. À esta altura e enquanto escolho os ingredientes do meu prato, os quais são nele servidos com cuidado e carinho, sinto minha boca salivar influenciada pela beleza e pela diversidade de texturas de cada um dos alimentos ofertados e expostos por detrás do vidro límpido e conceitual.  É tamanha a intensidade das sensações até ali vivenciadas que, no momento em que me sento à mesa, não mais pareço o mesmo ser humano de minutos atrás. Sou inundado por uma serenidade inexplicável e arrebatado pelo gosto delicioso e peculiar da comida que faço questão de mastigar pausadamente, como que desejando prolongar o prazer finito e temporário de um almoço semanal.  E na hora de ir embora, já satisfeito e após degustar uma diminuta xícara de café torrado, sou agraciado pelo sorriso de três pequenas e incríveis mulheres que, ao seu jeito, transformaram uma casa antiga, num verdadeiro e autêntico pé de amoras doces, do mesmo tipo daqueles dos quais nunca desgrudávamos quando ainda crianças.  
 

14 de maio de 2014

Ser romântico

Ser romântico é se passar no mais das vezes por incompreendido. É se destacar em meio à multidão de desiludidos e preferir o amor a covardia, o sentimento a razão. É lutar para que palavras apaixonadas não se percam no tempo e no espaço e é se preocupar em disseminar gestos sempre permeados de carinho. Ser romântico é encontrar sentido no afeto e poetizá-lo diariamente para que não o transformem em algo trivial. É inundar de emoção o cotidiano e dele fazer palco de rompantes inesperados e surpresas inesquecíveis. É extrair de toda e qualquer rejeição um ensinamento eterno e perdoar aqueles que se mostram incapazes de se devotar. Ser romântico é, na verdade, uma vocação própria dos que se recusam a deixar secar os olhos diante da beleza descomunal da vida. 

 

14 de fevereiro de 2014

Amo-te calado

Amo-te calado e me escondo de ti na mudez artificial do meu ser. Na sua presença controlo gestos naturais e automáticos e calculo cada mínimo movimento meu para não soar galanteadora demais a minha postura. Evito te olhar nos olhos para neles não me perder feito um cego andarilho. Pinto de morenos os seus lisos cabelos loiros de molde a tornar menos atrevidas as minhas mãos na ânsia de tocá-los. Do seu sorrir extraio apenas o movimentar simétrico dos lábios e tento dispensar a singela beleza que deles emana. Finjo um equilíbrio inexistente ao me sentar perto de ti e de tudo faço para tornar tranqüilas as minhas claramente perturbadas feições. Falo o menos possível com medo de que as palavras lhe sirvam numa bandeja a essência dos meus sentimentos e lhe revelem a centelha de paixão que carrego comigo. Inspiro e expiro pausadamente o ar quando não consigo deixar de notar a delicadeza dos seus traços que tanto que me colorem a alma e a iluminam. E é por te amar calado que escrevo e me declaro para que ao menos possam todos saber o que ainda não tive coragem de lhe contar.
 
 

31 de janeiro de 2014

O fato é que é

Bagunça-me como se eu fosse um enorme quarto de brinquedo e você uma criança levada e arisca. É te ver para o meu mundo virar do avesso, para as minhas certezas se dissiparem feito vapor d’água e para o meu sangue correr descontrolado por veias latejantes. Deve ser coisa de alma essa nossa ligação autêntica e travessa. Ou então loucura crua em forma de admiração e carinho desmedidos. Seja lá o que for e como for, o fato é que é, sem que versos soltos sejam capazes de explicar.
 
 

22 de janeiro de 2014

Sonho meu

É como se  estivesse o tempo inteiro parada na minha frente, imóvel a olhar nos meus olhos  com um leve sorriso no canto da boca, esperando quieta e paciente por um abraço meu. Acho que enxergo também uma de suas mãos se estendendo em minha direção como que me convidando a repousar nos seus braços sensíveis e delicados. Neste momento de carinho, revela-se aos meus sentidos como uma pintura de Picasso ou como uma escultura de Rodin, nítida, marcante e eterna. Vivem insistindo para que eu afaste de mim a sua imagem, mas noto que ao fazê-lo, minha vida se torna menos deleitável, menos graciosa e certamente mais triste. Prefiro sonhar contigo, ainda que sem poder tê-la, do que enfrentar a frieza dolorida da sua inexistência real.


Nada de amores por enquanto...

Eu confesso: evitei os seus olhos o quanto pude, mantive-me distante da sua presença perturbadora e tentei relevar os seus gestos para, assim, proteger o meu coração recém saído da UTI do amor. Coitado, ficou em coma por alguns dias, sedado, respirando com a ajuda de aparelhos... Quando recobrou os sentidos, ainda acamado, enfrentou dores consideráveis e sofreu com a falta de ar que insistia em lhe apertar o tórax. Todavia, medicou-se nas palavras e nos abraços de velhos amigos e, aos poucos, voltou a se sentir mais disposto e preparado para os desafios que estavam por vir. Quando recebeu alta, decidiu se recolher a fim de concluir adequadamente o tratamento. Fiquei dias sem vê-lo. Hoje, contudo, surpreendentemente bateu a minha porta e com o olhar cansado, fez-me a seguinte solicitação: “Paz e tranqüilidade é tudo que lhe peço amigo. Nada de amores por enquanto...”. Virou-se e, cambaleante, caminhou em direção ao horizonte. Alguns metros a frente, volveu o corpo dramaticamente, tirou do bolso uma flanela preta, ergueu-a e a tremulou em sinal de luto. Ok, Ok ! - falei baixinho - você venceu: nada de amores ...

 

21 de janeiro de 2014

Menina mulher

Ver-te de relance e contemplar a sua juventude latente, surpreendeu-me. Lembrava-te de outro jeito, como mulher feita. Mas és menina ainda, linda aliás, de cabelos negros, de olhos pequenos e de corpo miúdo. És beleza rústica num rosto fino e vertical e charme estampado em sobrancelhas expressivas e em sorrisos travessos. És também fofura e fragilidade, dignas de se querer levar ao colo para um cafuné desmedido e infindável. Desejo sorte ao que em ti souber ver o que vi num instante e memória, muita memória, para não esquecer os delicados traços que brotam de ti feito autêntica obra de arte divina.     

 

2 de janeiro de 2014

O que vai ser de nós?

O que vai ser de nós, povo deste país do futebol, das mulatas sambistas, da miséria oculta e da pobreza límpida?

O que vai ser de nós, povo deste lugar desigual, menina dos olhos do mundo, face reluzente da contradição arraigada nas lajes das favelas e nos mármores dos arranha-céus?

O que vai ser de nós, povo desta distinta nação que, de tão linda, embasbaca o mais trombudo dos homens, hipnotizando-o e fazendo-o contemplar como um menino impávido os belos tons de marrom dos nossos planaltos, a visão indescritível do verde musgo amazônico sob o formoso céu, risonho e límpido, e a silhueta metricamente perfeita da mulher canarinha?

O que vai ser de nós, povo heroico desta terra fértil e vibrante, de onde brota água, na mesma medida em que brota vida, aos montes e ilimitadamente, e, em cujas frestas, tudo cresce, germina, resplandece, exagerada que é por natureza, em tudo, sem meios termos ou exceções?

O que vai ser de nós, povo dessa pátria amada e idolatrada, manchada e abandonada pela vergonhosa classe política nacional, cujos discursos estrépitos e acalorados, exsurgem como balela narrada na segunda pessoa, nauseantes e repugnantes tal e qual o azedume do leite estragado?

O que vai ser de nós, povo deste território miscigenado, negro, branco, índio e mulato, banhado pelo sol da liberdade e pelos raios fúlgidos que, refletidos nos sorrisos desta gente, revelam uma felicidade delicadamente bela, própria de quem ainda aguarda, comoventemente, dias melhores?

O que vai ser de nós, povo deste berço esplendido, se tivermos que reeleger Dilma, o seu carisma inexiste e o seu passado questionável ou, então, a inexpressividade da oposição chocha, amórfica e sem vida?

O que vai ser de nós? Pergunto. De todos os seus filhos mãe gentil? Pátria amada, Brasil!